sábado, 4 de novembro de 2023

poliamor

 


...só vivo o que percebo que sinto. E, tantas vezes, eu, aqui, a perceber só a tristeza, com a felicidade ao meu alcance.


poliamor



Amar sem limites.” Amar um e outra, uma e outro, às claras – entre nós que nos amamos. Amar tanto… que desejo o bem do outro quanto meu próprio bem. Desejo e realizo este amor pleno, aclamado por quem, também, me ama. Ama tanto que, como eu, deseja meu e seu bem e desconhece os ciúmes.


Sonho. Meu amor, poliamor, me permite amar aqui e ali, ao mesmo tempo. Este amor que me possibilita ser amado lá e cá e libera meus sentimentos.


No amor platônico, amo o que desejo. E desejo o que me faz falta, desejo o que não tenho. “Amo o que não tenho. E, quando tenho, já não amo mais.”


No amor aristotélico, amo o que tenho, amo o que sou. Este o amor que aprendo. E, quando amo, me satisfaço com meu amor. Uma alegria, amar o que sou, o que é.


Sinto o amor crístico quando amo a todos, indiscriminadamente. Amo ao próximo, quem seja o próximo, como a mim mesmo. Sou amor quando amo a mim, a outra, a outro, a Humanidade. E amo, mais que a Humanidade, amo a vida.


*

E, no dia a dia, lerdo e gaguejante, como nesta manhã dominical, me alegro quando confirmo, o amor é lindo e me envolve. A vida está boa, do jeito que está. Acho é bonito estes equilíbrios dinâmicos, sinais de vida em cada vida amiga ao redor. Nada falta aqui, nem o supérfluo. Pura alegria. Como Clóvis de Barros Filho, o filósofo, diria, “…felicidade, aquele momento que desejo não acabe”.


*

Lembro, me lembro, tudo um tanto relativo. O cheio existe porque existe o vazio. Existe a tristeza porque a felicidade existe. O calor é o oposto do frio. O amor, a indiferença, o ódio. A riqueza, a pobreza. A escuridão, a luz. E um não exclui o outro.


No mesmo momento, eu – como, imagino, outras pessoas – penso em opostos, sinto contraditórios sentimentos, só vivo o que percebo que sinto. E, tantas vezes, eu, aqui, a perceber só a tristeza, com a felicidade ao meu alcance. Tudo tão simples e tão complexo. Tudo ao mesmo tempo, agora e aqui. Rápido como um momento. Na divagação, reconheço o que tenho em mim, escolho, me perco, me encontro.


*

Parece que, há muito tempo, nos primórdios da humanidade, viviam grupos de gente em diferentes estágios de evolução integral. Neandertais, pitecantropos, sapiens, tudo ao mesmo tempo, na mesma época, em territórios diferentes.


Talvez como agora, ao mesmo tempo, às vezes no mesmo território, gente a construir a guerra, gente a praticar a paz. Alguns sentem aquele vazio amoroso que não sabem de onde vem. E buscam suprir esta falta de afetos, este vazio, com objetos. Círculo vicioso, os objetos não suprem as faltas de afetos. Sentem, estes, que o mundo lhes deve. E sofrem, em suas aparentes riquezas.

Outros – às vezes os mesmos, o amor desperto – amam e se sentem supridos. Contentes no presente. Contentes no momento do primeiro passo pro abraço, da escolha do que deseja e é.


*

Este amor liberto tudo muda. Quem ajudado, agora ajuda. Eu, antes feio, me torno belo. Parece possível – a mim, a cada um que deseje – usufruir das possibilidades, se movimentar, experimentar seu caminho do coração. O amor como um caminho. Qualquer forma de amor “vale a pena, se a alma não é pequena”.


Tento e aprendo, só dou o que tenho. Só posso amar a outro quando amo a mim mesmo. Naturalmente, de acordo com meu desejo, possibilidade, movimento.


Aqui se inicia o ciclo virtuoso.



Luiz Fernando Sarmento

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

psi

 

psi



Wilhelm Reich foi um choque. Almir Muniz, jornalista animado, me apresentou o Combate Sexual da Juventude, escrito na década de trinta para jovens alemães.


Pela primeira vez, uma orientação sexual não moralista. Eu trazia em mim as culpas do catecismo, reforçadas pela leitura do limitado Vida Sexual de Solteiros e Casados, de João Mohana, padre e médico. Que experiências teriam homens com voto de castidade para dar orientações sexuais a inocentes jovens crédulos?


Mergulhei, fui fundo em Reich, li A Função do Orgasmo, Revolução Sexual, Psicologia de Massas do Fascismo, Irrupção da Moral Sexual Repressiva, Escuta Zé Ninguém, Casamento Indissolúvel ou Relação Sexual Duradoura, Análise do Caráter.


Para sentir, só me restava viver. O pecado seria não experimentar. A regra de ouro permanecia: não faço a outros o que não desejo que façam a mim. Romel Alves Costa, psiquiatra, também tinha sido tocado por Reich. Experimentou técnicas terapêuticas com um colega, deixou o emprego no INSS, abriu espaço e colocou anúncio-tijolinho no Jornal do Brasil.


Lá fui eu, por cinco anos, muitas vezes por semana, hora marcada, nu de corpo e alma, me emocionar, tentar me sentir e me entender. Respiração e movimentos, atento. Volta e meia formigamentos. Se os suportava, vinham reflexos. Com os reflexos afloravam sensações, sentimentos, pensamentos. A memória fazia presente o passado. Fichas caiam, compreendia dentro de mim, insights bem vindos. Movimentos de braços, pernas, pélvis, olhos... Em meu corpo, minha memória, minha história.


Na penumbra, seguia com os olhos a luzinha manuseada pelo terapeuta. De repente, tantas vezes, lapsos. Quando dava por mim, estava em posição fetal, com lembranças remotas de infância. Eu no berço, cerca de dois anos, os olhos muito apertados, um jeito de fugir daquele medo que as sombras me traziam. Medo de almas de outro mundo, mulas sem cabeça, defuntos.


Descobri, ali no consultório de Romel, a origem de minha visão distorcida. De tanto apertar os olhos, acredito ter forçado a musculatura local a ponto de perder a elasticidade. Com os exercícios, pouco a pouco recuperei esta mobilidade muscular.


A lente direita de meus óculos diminuiu de quatro graus e meio para zero vírgula setenta e cinco. Depois de usar óculos por vinte e sete anos, passei três anos de cara limpa, enxergando tudo, suficientemente bem. Ao mesmo tempo, medos presentes, antigos e novos.


Passado um tempo, não suportei nem os medos nem as alegrias. Voltei a usar óculos, mas perdi outra inocência: sou responsável por mim mesmo. Reclamo primeiro ao espelho.


Na Equitativa conheci Ralph Viana. A Rádice já estava no sexto ou sétimo número. Era uma revista de psicologia com visão ampla. Trazia da Inglaterra a antipsiquiatria de Laing, da Itália o movimento antimanicomial de Basaglia, apresentava Nise da Silveira e seu Museu de Imagens do Inconsciente, abria espaço para os argentinos, para a latino américa, pro universo psi mundial. Além de Freud, Jung, Reich, Lowen, Alex Polari, outros visionários chegavam a quem abrisse suas páginas.


Meu coração se juntou às ondas. Me ajudei, ajudando. Resumos de livros, administração, distribuição, divulgação, próximo de quase tudo. Imagino: mesmo quem não foi saberá como eram maravilhosas as festas de Ralph quando se recordar das suas próprias melhores lembranças.


Guerrilha cultural, jornais e revistas nasciam, cumpriam sua missão, eram colecionadas lá dentro de quem lia. A Teoria Crítica mergulhava mais fundo. O Luta & Prazer era leve. O Espaço Psi, o Nexos, o Estar Bem, o Bem-estar… como quase todos jornais libertários, eram distribuídos gratuitamente.


E os simpósios? O Alternativas no Espaço Psi – Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, 1979 ou 80, no Parque Lage, Rio de Janeiro, cento e doze eventos em três ou quatro dias intensos. Em vários espaços, ao mesmo tempo, palestras, debates, vivências, intercalado com festas, recreios, namoros. Clima fraterno, solidário. Com zero ou quase de dinheiro, uma multiplicação de ajuntamentos do que cada um colaborava. Valéria Pereira, Ralph, eu – e muita gente, Sérgio, Dau Bastos, Eugênio Viola, Jorge Velloso, quem mais? – interagíamos com os voluntários, na realização dos encontros.


Mas não éramos sós. Tarefas relacionadas, um a um definia o que se propunha realizar e em que prazo. Exercício de autonomia integrada. Rede sem sabermos que era rede. Parque Laje, eventos diferentes a cada duas horas em cada um dos oito espaços. Quem entrava se dirigia para o que escolhia.


Foram, na verdade, mil e cem simpósios, um para cada uma das mil e cem pessoas presentes. Os conteúdos, os jeitos de fazer se espalharam pelos brasis, adaptados às realidades locais. Hoje teses acadêmicas recuperam memórias, sopram novos movimentos libertários. Há que descobri-los.

sábado, 21 de outubro de 2023

livros

 

livros


1

Júlio Ludemir mergulha onde vive e relata. Conheço um pouco de favela também através do que escreve. Sou um tanto favelado, somos semelhantes pelos sentimentos.


2

Outro tanto de favela conheço através d’As Cores de Acari, de Marcos Alvito.


3

Em Por Uma Pedagogia da Pergunta, Antonio Faundez conversa com Paulo Freire. Diz que a cultura não é apenas uma manifestação artística ou intelectual que se expressa através do pensamento. A cultura se manifesta nos gestos mais simples do cotidiano. Cultura é comer de maneira diferente, é relacionar-se com o outro de maneira diferente. Salve minhas culturas de infância. Viva Salinas, viva Montes Claros, viva o Norte de Minas!


4

Mirian Goldenberg, na Folha de SP, diz que seus “…pesquisados apontam três ingredientes no casamento: amor, paixão e amizade. O amor aparece como um sentimento amplo e difícil de ser definido. É diferente da paixão, inicial e provisória, que se transforma em amor ou acaba.”.


5

Procuro me conhecer. Atento, tento, ao sentimento, ao pensamento, à palavra, à obra.


6

David Bornstein, em Como Mudar o Mundo, estimula quem tem ideias inovadoras focadas no bem-estar coletivo.


7

Já Charles Feitosa, em Explicando Filosofia com Arte, trata de questões profundas de uma maneira tão acessível… e quando a gente menos espera, filosofa, se vê refletindo sobre o todo, o nada, o essencial.


8

Carl Gustav Jung me ajuda, permanece vivo. Tanto através de Nise da Silveira, que escreveu Jung, Vida e Obra, quanto através de suas Memórias, Sonhos e Reflexões e d’O Homem e Seus Símbolos, finalizado poucos dias antes de sua morte. Jung dedicou a vida à compreensão dos sonhos, dos mundos interiores.


9

Thomas Szasz me ensinou a cuidar de tratos. Nem me lembro como, mas ficou em mim um tanto de sua A Ética da Psicanálise.


*

10

Wilhelm Reich me ajudou a eu próprio me compreender, me aceitar, me desenvolver. O Combate Sexual da Juventude me ajudou desculpabilizar-me em relação ao sexo. A Função do Orgasmo me ensina como pode ser o processo. A Análise do Caráter me dá métodos de me cuidar. Tudo, naturalmente, do jeito que entendo a cada releitura. E do tanto que me permito a prática.


11

As cartas trocadas por Ferenczi e Freud me ensinam da amizade. Em cada consideração, algo que um oferece ao outro e a mim.


12

Freud se humaniza quando se expõe. Isto de inconsciente e consciente me faz pesquisador de mim mesmo. Quanto mundo reconheço em mim!


13

Compreendi melhor Laing, a pessoa, no seu Fatos da Vida. Sua dedicação ao acolhimento do outro faz sentido com o que ele próprio viveu. Antes ele tinha me tocado com o Laços. Ele fala de mim quando fala do outro. Os chamados loucos têm um tanto de mim. Eu tenho um tanto dos loucos. Acredito que como todos, ou quase todos, nós.


14

Winnicott dedicou a vida à pediatria e à psicanálise. Tudo Começa em Casa é composto por palestras que fez durante a vida. Cada capítulo se completa em si mesmo. É um livro póstumo. Mamãe já morreu, mas hoje aprendo a melhor compreendê-la e amá-la com o que Winnicott me oferece. A comunicação permeia todo o fazer. Sua insuficiência interfere nas relações. A partir daqui interfere em tudo. A comunicação se dá com o outro e, indo fundo, consigo mesmo. O pensamento já é mensagem.


Quando há realização de desejo de compartilhamento de informações, as comunicações se iniciam. Quando eu próprio entendo o que comunico – e o outro também – as comunicações se animam. Quando eu entendo o que o outro me comunica, as comunicações se completam.


15

Bubber me ensinou que quando vejo uma árvore e percebo suas características – o caule, as folhas, as raízes, as flores… – a árvore está fora de mim, é um isto. Mas quando eu sinto a árvore, a árvore sou eu, somos eu-tu. Eu-tu é um livro de Bubber.


16

Tostão me surpreende quando escreve sobre futebol. Ali o futebol representa a vida. Tostão bate bola com insights.






Luiz Fernando Sarmento

www.luizsarmento.blogspot.com


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

relações humanas




156 TALVEZ DEFINITIVO – uma vida incomum como qualquer um – relações humanas



uma vida incomum como qualquer um


relações humanas


Relações humanas incluem relações emocionais. O que me leva ou o que me impede relacionar com outro? Às vezes esporádicos, os METS – Movimento Emocional e Transformações Sociais – encontros periódicos que criamos, com Michel Robin, e realizávamos no Sesc Rio, procuravam congregar quem considera desenvolvimento emocional como base para desenvolvimento humano e social.


Demos um tempo nos METS quando conhecemos as TCs – Terapias Comunitárias, criadas por Adalberto de Paula Barreto. Nas TCs, teoria, metodologia e prática somam conhecimentos acadêmicos e populares. A TC é política pública no Brasil, hoje. Pra saber mais, vale visitar o www.abratecom.org.br ou, para assistir alguns vídeo-registros, o www.luizsarmento.blogspot.com. Ou pesquisar no Youtube.


Os LPS – Livre Pensar Social – eram encontros voltados para reflexões e fomento de políticas públicas. Articuladores, apoiadores e realizadores de projetos comunitários – sem compromisso conclusivo ou deliberativo – compartilham ideias, informações e reflexões focadas em desenvolvimento humano, social, integral.


Antes, ainda no Sesc Rio, apoiado nas práticas por Lídia Nobre, a assistente social, criamos as Redes Comunitárias, onde cada participante tem espaço para falar do que oferece e do que procura em relação ao lugar que vive ou ao tema que lhe interessa. Pra mim, redes comunitárias cuidam do objetivo. E terapia comunitária do subjetivo. Como tudo, ou quase, na vida, varia.


A ideia das Agências de inFormação deu motivo para que George de Araújo e eu, com apoio de Carolina Pelegrino, Andrea Medrado e Gilberto Fugimoto, realizássemos os CCI – Comunicação Comunitária Interativa – encontros de pessoas e instituições ativas e interessadas em levar e trazer informações para quem não é escutado e para quem não é representado por mídias formais. É gente que trabalha com jornais, rádios, TVs comunitários, folhetos, alto-falantes, comunicação popular. Gente que leva e traz informações e notícias, interage com seu público. E que, nos encontros, reflete sobre o que faz e comunica, conteúdo e forma.


Estes encontros muitas vezes foram sementes que geraram vínculos, parcerias e movimentos. Tudo em ondas, frutos de contribuições de cada um, de acordo com suas possibilidades e desejos.


Gravei em vídeo, com apoio de muitos, muitos destes encontros. Cada editor – cocriação e muito suor – deu personalidade a cada vídeo. Em sua maioria, os vídeos estão na internet.


Os ouvintes querem falar:

todos sabemos que há gente procurando e oferecendo de um tudo. Quando se encontram e se entendem, se suprem. Quando não sabem um do outro, oportunidades desaparecem.


Início do milênio, Sesc Ramos, ao lado do Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Fórum Transformações Sociais – O que Pode dar Certo. Palestrantes experientes numa mesa, trezentas pessoas na plateia. Nem mesmo falas interessantes interessaram aos presentes. Em menos de uma hora, evasão. Das trezentas, somente umas cinquenta, sessenta ficaram.


Levamos o microfone ao público. Agarram, botam pra fora: “o governo não presta…”. Muita gente na fila, todos querem falar. Eu, inseguro: “Peraí! Seja objetivo por favor: o que você veio procurar aqui? O que você veio oferecer? Dois minutos para cada um.”.


Pronto, surgiu o jeito, a metodologia. Convidamos quem se interessasse para uma primeira conversa, juntos. Em roda, os tratos iniciais – aqui, neste momento, somos iguais em direitos e deveres. Encontro sem palestra nem eventos, só as falas individuais…


Cada um sintetiza quem-é-o-que-faz, se-representa-uma-instituição, o que procura, o que oferece. E seu e-mail, telefone ou endereço. Tempo limitado, um-dois-cinco minutos, dependendo de quantos estão presentes e do tempo total que pretendemos estar juntos naquele encontro.


É um desafio sintetizar, falar pouco e objetivamente. Aprendemos juntos. Para facilitar o controle dos tempos individuais, há encontros em que utilizamos uma ampulheta, outros em que batemos palmas no limite ou simplesmente avisamos, cordiais: tempo esgotado.


Depois que todos falam, os interessados se deslocam para o café. E, ao redor da mesa, cada um aprofunda a conversa com aqueles por cuja oferta-procura se interessou. Trocam informações, ideias, se conhecem. Constroem parcerias.


Base das redes comunitárias, os encontros são voltados para a construção de realizações, para a prática de parcerias, através de pessoas representativas – interessantes e interessadas – de comunidades e instituições privadas, públicas e do terceiro setor.


De modo simples e objetivo, cada representante se apresenta e fala o que veio procurar e o que veio oferecer. Todos têm oportunidade de falar e ouvir. E, quando cada um sabe quem é quem, o espaço se abre para o aprofundamento de relações e formação de parcerias.


Normalmente os encontros acontecem periodicamente – mensalmente, por exemplo – no mesmo local ou em espaços alternados. A metodologia naturalmente é adaptável a cada realidade. O importante é que gere os frutos desejados e possíveis.


Permanecem como memória os classificados sociais e a lista de participantes. Nos classificados, cada um descreve sinteticamente o que oferece, o que procura e dá seu nome, telefone, email. Estes dados são posteriormente digitados e disponibilizados diretamente para cada um – via email – e, quando possível, para o público em geral, também virtualmente através da internet. Cópias xerocadas podem ser distribuídas para os participantes de encontros posteriores. Estes classificados são cumulativos: a cada encontro, novas ofertas e procuras, relativas a novos e antigos interessados.


Rodízio criativo:

imagine uma instituição de porte médio: empresa, serviço público, ong... Em consenso interno, trabalhadores de um setor liberam um ou mais do grupo, por um ou mais dias, para visitarem, estagiarem, em outros setores. Os que permanecem no setor original cuidam do cumprimento do conjunto das suas obrigações normais. Esta a ideia básica.


Parece ser bom para a instituição – e para o trabalhador e seu grupo – que cada um tenha o olhar do todo, além de capacitação aliada ao seu próprio desejo. E parece ser bom para cada trabalhador ter acesso a oportunidades que facilitem acréscimos a seus conhecimentos pessoais e profissionais. A prática tem ensinado o melhor caminho.


Luiz Fernando Sarmento

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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

antecipo o futuro?




antecipo o futuro?


Numa livraria, mundos. Em cada mundo, nas linhas e entrelinhas, no dito e no não dito, pontas como de icebergs. Desisti de compreender tudo. Já basta não me compreender, o mundo que sou.

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Nunca tive um time de futebol de coração. Mas adoro jogadas bonitas.

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Tento me limitar. Sou pouco pro que desejo. Mas conversar, topo.

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Tudo novo. Tentativas, tropeços, bambeios, aprumos e de novo. Sinto que a direção permanece. Eterno aprendizado.

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Tudo o que desejo, imagino tão pouco. Talvez seja muito. Desacelero?

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Volta e meia, mexidas. Cada vez não fazer me atrai mais. Quero me guiar pelo que vivo no caminho, ao caminhar.

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Entre o desejo e a realização gastei um tanto de minha vida. Volta e meia me lembro do poeta francês: perdi minha vida por educação.

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Quando feliz, lembro a sorte que tenho em desejar quem me deseja, em ser um tanto quem gosto ser.

*

Volta e meia experimento viver agora o que desejo viver no futuro. Quando consigo, antecipo o futuro.

*

Facilitam minha memória estas fotos e gravações que tanto fiz em minha juventude. Ao vê-las, relembro o que então vivi. E assim, inda agora, gravo, fotografo, escrevo quando desejo. E mais priorizo as relações com quem vivo, convivo.

*

Aprendo quando presto atenção no que penso, no que sinto, falo, faço. Só vivo mesmo se presto atenção no que sinto. Se sinto – e não presto atenção – nem sei que senti.

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Imagino presente, na memória inconsciente, o ausente do consciente. Um baú de lembranças não lembradas, em algum lugar de mim.

*

Filosofar é livre pensar?

*

As coisas práticas: trazer a garra, prender o abajur à prateleira de cima. Apoiar a venda do apartamento da amiga, acompanhar a compra do outro. Interagir na diagramação do livro, articular a impressão, aprender a facilitar a distribuição.


Há uma lista mutável. Cada objetivo, um conjunto de tarefas. Defino prioridades, relaciono as tarefas e, nos seus tempos, cada objetivo se realiza ou se transforma.

*

Lia O Cruzeiro. Copacabana, beleza, aventura, alegria. Desejava vir pra lá, estudar no Pedro II, morar no Rio. Eu, 14 anos, ali em Montes Claros, 1960. 1971, cheguei. Almejava dinheiro, mulher, glória. Agora sinto saúde, sossego e meu sucesso é outro. Lá fundo, desconfio era este meu desejo. E não sabia.



Luiz Fernando Sarmento

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segunda-feira, 16 de outubro de 2023

doar traz prazer?



doar traz prazer?


O amor será assim, uma amostra do paraíso? Gente como eu, qualquer um, em estado de alegria? O tempo vira agora, o espaço é aqui, serenidade e eu somos um só?

*

Na vida, a síntese do desejo é estarmos contentes?

*

Lembra aquela história do pescador?

Vilazinha do interior, beira de rio, o pescador adormece, o peixe morde, a vara treme.

O turista vê, arquiteta: vou mexer com este caipira.

Pega a vara, pesca, pesca, pesca.

Acorda o pescador, aponta o cesto cheio: olha o que você perdeu!

Inda zonzo do cochilo, o pescador: o que?

O turista: os peixes, olha o tanto.

O pescador: pra que?

O outro: pra vender, ganhar dinheiro. Fazer o que você gosta.

O pescador: mas já tô fazeno…

*

Eu me sinto assim, nesta fase que curto enquanto é. Satisfeito comigo, desejos ausentes, tento atento viver contente. Difícil agora é suportar a alegria. Tristeza era fácil, matava no peito todo dia.

*

Entre graves e agudos, este jeito de escrever. Breves anotações?

*

O que sou hoje é o que construí antes, em cada ato passado. Mas vivo mesmo só o presente.

*

Vestidos. Saias em casa? Serão frescas, arejarão meu corpo? Práticas, as saias? E o olhar do outro? E eu me olhar com saias? Só mudo e escondido? Se em relação a saias sou assim, como serei em relação a cada possibilidade de prazer?

*

Os pecados mortais, os pecados veniais. O prazer perde espaço. Um aprendizado, estar contente agora, aqui. Já o futuro, noutro lugar: ali, é mistério, é novo. Só saberei ao experimentar.

*

Relembrando Laing, o Ronald, quero agora investigar como aqui cheguei, o que faço neste mundo, porque eu, nós aqui nos encontramos, quem somos. Mas, antes, treinar alegria.

*

Muita coisa já esqueci, um tanto de livros que li. Algo do DNA de lá passou pro DNA de cá? Sou assim um saldo do que me entra, do que me sai. Da soma do que permanece, ora as células, ora os conhecimentos, os sentimentos, as memórias.

*

Estou grávida de me tornar mais inteira. O pensamento é a linguagem, o meio é a mensagem. Estas ideias vieram de outros que não eu. Imagino flutuantes. De repente atraídas, se tornaram insights. Agora são também minhas. Compartilhadas, permanecem

sem donos, mesmo sendo suas, minhas, deles, nossas.

*

Falsa memória, lembro de encontros comigo em que eu não estava lá. Presentes só na minha escorregadia memória. De fato, talvez só desejos. Lembro de fatos imaginados. Brinco com esta memória que me supre, me torna quem não sou. Conto só pra mim.

*

Separações na minha vida: as que me lembro, carrego comigo. São aparentes separações?

*

O que escrevo, se já sei, é mais uma recordação do que vivi, do que não.

*

Sinal de alguma saúde? Não sei onde fica meu fígado.

*

Sou imaturo no que sou ignorante. Quanto mais ignoro o que sinto, mais verde sou.

*

Hoje distribuímos quentinhas que Regina, Bruno e Vera produziram. Os olhares, as palavras de quem, com fome, recebia, enterneceram nossos corações. Doar traz prazer.

*

Sexo: as dúvidas de meu avô permanecem, geração após geração. Na infância, sexo um mistério. Na adolescência, sexo um segredo. Na fase adulta, que faço com meu tesão por gente que não devia? Maduro, acalmo-me um tanto. Morto, ausente de libido, ausente de conflitos.




Luiz Fernando Sarmento

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domingo, 15 de outubro de 2023

de galho em galho




de galho em galho


Quando desequilibro me sinto adoentado, penso em auto-hemoterapia. Se mais intenso, peço atenção do Jun Kawaguchi, amigo e acupuntor.


Paralelo, bebo mais água, como mais leve. E descanso e respiro, descanso e respiro… Se preciso, vou a médicos. Mas, prefiro ir a médicos quando estou saudável. Fico mais de igual pra igual, troco ideias, informações, eventualmente afetos, aprendemos juntos, criamos vínculos.

*

Promovo minha saúde quando me cuido, caminho um tanto, como o que me faz bem, convivo com quem me sinto à vontade, faço o que desejo, cuido do outro como de mim. E escolho o que sinto, penso, falo, faço. Mas, mesmo sabendo um tanto o que me faz bem, nem sempre ajo assim. O que me faz descuidar de mim?

*

Nos jornais, entrelinhas são atos falhos? Nas entrelinhas estão as verdades?

*

Imagine.. cada um de nós antecipando o futuro desejado... e experimentando ser libertário em si mesmo, ao seu re dor, em sua casa, comunidade...

*

Eu desejo por que sinto falta? A falta que sinto é como um buraco de onde foi retirado algo que eu tinha? Ou a falta que sinto tem sido provocada por desejos que a publicidade me desperta? Se sou suprido, permanece, surgem outras faltas?

*

Volta e meia me faço perguntas. Por isso tanta interrogação? Ou interrogações já existiam, antes mesmo das perguntas?

*

Construo meu futuro presente em cada ato de agora? Não vislumbro meu futuro se não sei do meu presente?

*

Esta contabilidade cósmica, que sinto, existe? Não preciso, então, anotar débitos e créditos? Posso parar de controlar?

*

Antecipo para hoje o que desejo no futuro? Experimento um tanto do futuro agora?

*

A propaganda é feita de metáforas? Parábolas também são feitas com metáforas?

*

Mudanças radicais passam não pela razão, mas pelos sentimentos? Pela fé, por exemplo?

*

O sentimento define o comportamento? A cultura define a moral? Comportamento, combinação de sentimento e razão?

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Já assisti palestras sobre sexualidade que só mostravam doenças. Já li textos que condenam o sexo. Fiquei com medo. O que me salva é o que aprendo com quem vive bem sua própria sexualidade.

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A pílula foi um marco. Antes, o medo de engravidar alimentava o medo de transar. Depois, a alegria de transar alimentou a alegria de viver.

*

O movimento hippie ampliou meu mundo. Tudo tão novo e tão simples. A comida, a música, a atitude, o amor. Flower power. Love is all we need. Cosmic love.

*

O viagra inda é um mistério. Funciona por um tempo, mas não sei se causa efeitos colaterais.

*

De tempos em tempos, uma praga delimita, dá limites. Historicamente recentes, tuberculose, sífilis, gonorreia, HIV, HPV, Covid. Conflitos interpessoais, guerras, também. Tantos amores contidos, interrompidos…

*

Ser fiel a mim e ser fiel ao outro? Como posso combinar o futuro se o futuro é mistério? Tratos, contratos, significam mais intenções que certezas?

*

A fé vem da vivência? Tenho fé, esperança, quando experimento? Tudo num átimo, o tempo todo fora e dentro se misturam?

*

Aprendo, delimito a realização de meus desejos ao considerar o sentimento do outro.

*

Alimenta minha alegria passear no Boitatá. Também fico contente no ambiente do Céu da Terra. E na Orquestra Voadora, no Maracutaia, na praça São Salvador, no Cordão do Bola Preta. Em cada bloco de carnaval, reina o prazer. Em cada movimento, uma sabedoria própria.

*

Que é mesmo livre arbítrio?


Luiz Fernando Sarmento

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